quarta-feira, 17 de junho de 2009

Morte e Vida Srverina

O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Mariacomo há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Mariado finado Zacarias.
Mais isso ainda diz pouco:há muitos na freguesia,
por causa de um coronelque se chamou Zacariase que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem faloora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severinoda Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:se ao menos mais cinco havia
com nome de Severinofilhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finase iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,morremos de morte igual,
mesma morte severina:que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
alguns roçado da cinza.Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhoriase melhor possam seguira história de minha vida,passo a ser o Severinoque em vossa presença emigra.

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É difícil defender,só com palavras, a vida,ainda mais quando ela é
esta que vê, severina mas se responder não pude
à pergunta que fazia,ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida mesmo quando é assim pequenaa explosão,
como a ocorridacomo a de há pouco, franzina
mesmo quando é a explosãode uma vida severina.

João Cabral de Melo Neto, cabra da peste.

http://www.geocities.com/joaocabraldemeloneto/morevida.htm

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